quarta-feira, 3 de março de 2010

Uma palavra sobre orgulho denominacional







A liberdade religiosa garantida pela nossa constituição e a facilidade de se criar uma nova denominação mediante registro em cartório, são fatores que contribuem para a multiplicação de novas agremiações religiosas autodenominadas evangélicas. Se por um lado essa facilidade tende a auxiliar na propagação do evangelho, por outro lado ela também pode causar transtornos, isso porque os novos grupos geralmente são dissidentes de alguma denominação histórica, e alguns acabam renunciando as doutrinas essenciais do cristianismo, trocando-as pelas novas teologias com ênfase na revelação subjetiva, misticismo, saúde e triunfalismo econômico.

Acontece que o aumento dessas novas comunidades têm levado a uma reação radical por parte das igrejas históricas, bem como pelo pentecostalismo clássico – representado no Brasil pincipalmente pela Assembléia de Deus. Alguns ministros, numa tentativa desesperada de não se contaminarem com os modismos pregados por essas denominações, são tão radicais em seu rechaço que acabam promovendo um ostracismo religioso, como se suas denominações fossem as únicas “corretas”. Nesse afã, acaba-se por falar daquilo que não se conhece. Já vi colegas rejeitarem por completo a doutrina de uma determinada denominação pelo simples motivo de o seu fundador não ter se filiado a nenhuma denominação histórica, ou “politicamente” correta. Eles não querem saber se o pastor "tal" prega a salvação pela fé, se ele tem a Bíblia como padrão, priorizando-a em sua vida pessoal e ensinando-a em sua congregação. Eles rejeitam de cara, pelo simples motivo de tratar-se de uma denominação nova.

A esse rechaço apriorístico por parte dos pastores antigos aos grupos novos, sem que haja ao menos o interesse de conhecer as crenças desse grupo, eu chamo de orgulho religioso. É a vã glória de quem se estriba na placa de uma igreja, defendendo com unhas e dentes um sistema politico com pretensões religiosas, crendo-se, talvez, a última Tubaína quente do deserto. É claro que tem havido muitos escândalos por parte dos novos grupos, mas não podemos esquecer que há exceções: E aqueles dissidentes que abandonaram suas denominações porque cansaram de pisar no sal grosso e de determinar bençãos aqui e ali, que cansaram da melodia simplória e das letras medíocres dos mantras gospels que se ocultam trás a alcunha de louvor? Acaso não vamos considerar esses? E o que dizer daqueles que cansaram dos modelos de liderança que priorizam os números mais que o crescimento espiritual, buscando encher seus mega templos a todo custo, ainda que para isso tenham que abandonar as escrituras e recorrer à metodos importados do mundo dos negócios? Acaso não consideraremos esses?

O orgulho denominacional é nocivo ao crente. Foi esse pecado que transformou os anjos em demônios. Ora, nós não fomos salvos pela Igreja Batista, Presbiteriana, Metodista ou Assembléia de Deus. Não foi Smith, Knox, Wesley ou Daniel Berg que morreu na cruz pela minha salvação. É preciso entender urgentemente que o cristianismo não é propriedade de uma denominação. Como diz sempre o pastor Serafim Isidoro: “Cristianismo é o Cristo!” Eu sei que há muitas heresias sendo propagadas pelos novos grupos, mas eu também sei que tem muita gente boa entendeu que a única maneira de permanecer pura era separando-se de um sistema organizacional corrupto a fim de congregar-se com a conciência tranquila. Não confundamos estes com aqueles. Não misturemos alhos com bugalhos.

Quem lê o meu blog sabe que eu sou o primeiro a denunciar o erro. Mas eu ainda acho que a apologética, para ser válida, deve ser exercida de dentro para fora. Devemos ser intolerantes sim, mas começando por nós mesmos: intolerantes com nossos pecados, com a nossa mediocridade, e porque não dizer, com o nosso orgulho denominacional. Não sejamos como os heréticos que não sabem dar a razão da sua fé (ou da ausência dela). Não sejamos como os meninos de Corinto que peleavam por causa de Paulo, Apolo e Cefas. Se é para defender a verdade e denunciar o erro, então vamos levar isso às últimas consequências e denunciar toda politicagem, mentira e apostasia, mesmo que seja dentro da “nossa casa”. Vamos dizer a verdade sim, doa a quem doer, mas não vamos retroceder ainda que doa em nós mesmos. Como disse Petrarcca, devemos amar mais a verdade, e menos as agremiações religiosas. Defender a bandeira de uma denominação é burrice. Isso não é apologia, é meninice. É corintianizar. Lembre-se que o cristianismo não pode ser limitado à uma estrutura religiosa. Cristianismo não é denominacionismo; cristianismo é o Cristo!

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