segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Cristianismo e as Demais Religiões Existentes


Cristianismo e as Demais Religiões Existentes


Uma das questões teológicas que mais me perturbaram (e, confesso, ainda penso muito sobre ela) é sobre a relação entre a fé cristã e as demais religiões existentes. Dentro desta questão, várias perguntas surgem, como: Os não-cristãos serão salvos? Como Deus enxerga os islâmicos, por exemplo? Devemos buscar relacionamentos com as demais religiões (ecumenismo)? Se sim, qual será o momento oportuno para testemunhar a fé em Cristo?

Certamente, tratam-se de questões bastante indigestas para os “em-cima-do-muro” e às pessoas mais pragmáticas em relação à fé, porém, em meio ao relativismo pós-moderno em que estamos vivendo, acho que as questões relativas à variedade de religiões devem ser discutidas por nós cristãos.

A gama de assuntos que são levantados por estas questões é, evidentemente, enorme, portanto, vou neste texto apenas introduzir você, leitor, ao problema em questão; apresentar as teorias já propostas na tentativa de responder ao problema; e dizer algumas de minhas opiniões. Pretendo não trazer conclusões aqui, apenas reflexões.

O problema principal a ser abordado (dentre os vários existentes) é: existem milhares de religiões no mundo e todas igualmente afirmam ser verdadeiras e seguirem ao Deus verdadeiro. Se o cristianismo é a religião verdadeira, o que será dos não-cristãos quando morrerem?

Os que respondem a esta questão se dividem em três grupos: os exclusivistas, os pluralistas e os inclusivistas.

Exclusivismo: o exclusivismo prega que apenas uma dentre as religiões existentes no mundo conduz o fiel a Deus. Todas as demais religiões existentes são farsas ou enganações criadas por seres humanos. Existem as versões fortes e fracas do exclusivismo. Os exclusivistas fortes são os chamados fundamentalistas, que não apenas pregam a veracidade única de sua religião, mas também pregam que se deve manter total distância em relação às demais religiões existentes. Os exclusivistas fracos também são chamados de inclusivistas (leia sobre eles mais abaixo).

Pluralismo: o pluralismo é o extremo oposto ao exclusivismo. Para os pluralistas, todas as religiões são igualmente verdadeiras e todas igualmente conduzem seus fieis a Deus. Também podemos identificar as versões fracas e fortes do pluralismo. Os pluralistas fortes declaram que todas as religiões são igualmente certas (ou igualmente erradas) em suas afirmações sobre Deus (não existem religiões mais corretas que outras). Já os pluralistas fracos chegam a reconhecer que algumas religiões contêm mais coerência que outras, apesar de que, ainda assim, todas são caminhos para o mesmo Deus no final das contas.

Inclusivismo: o inclusivismo concorda com o exclusivismo que apenas uma dentre as religiões disponíveis é verdadeira. Porém, diferentemente do “exclusivismo forte”, o inclusivismo diz que Deus não condenará os integrantes das demais religiões apenas por eles não terem escolhido a religião verdadeira enquanto vivos. Para o inclusivista, Deus proverá meios para os integrantes das demais religiões que possibilitem a eles a oportunidade conhecê-Lo e manter com Ele um relacionamento.

Antes de prosseguir, responda mentalmente: em qual destes três grupos você se encontra?

Desta parte do texto até o final apresentarei basicamente minhas opiniões sobre a questão. Você é livre para discordar ou me corrigir se achar necessário.

O pluralismo forte, em minha opinião, apesar de ser compartilhado pelo pensamento secular do mundo atual, incorre em várias falhas. Tomemos como exemplo, o princípio lógico da não contradição e a divindade de Jesus Cristo. O princípio lógico da não contradição diz que uma substância não pode possui e não possuir ao mesmo tempo certo ser ou certa propriedade. Segundo este princípio, portanto, Jesus não pode ser e não ser ao mesmo tempo Deus. Jesus Cristo, necessariamente, é ou não é Deus, ele não pode ser e não ser ao mesmo tempo Deus. Ora, para o cristianismo, Jesus Cristo é uma manifestação da divindade de Deus; para as demais, Jesus ou foi um profeta (islamismo) ou foi um agitador apenas (judaísmo) ou foi apenas um homem de moral elevada (hinduísmo). Pela lei da não contradição, ou o cristianismo é a única religião verdadeira em relação à divindade de Jesus Cristo, ou ela é falsa e as demais, a priori, verdadeiras.

Qualquer que seja a verdade sobre Jesus Cristo, porém, podemos saber que a idéia de que todas as religiões são totalmente verdadeiras é um mito, nada mais. As religiões diferem entre si e, pela lei da não contradição, sentenças contraditórias sobre determinado assunto não podem estar igualmente e plenamente verdadeiras.

O pluralismo fraco reconhece que as religiões diferem entre si e que algumas são mais verdadeiras que outras em alguns aspectos, porém, ainda assim, afirmam os pluralistas fracos, todas elas são caminhos que conduzem os fieis à mesma salvação.

Apesar de ser uma posição adotada por muitos, o pluralismo fraco me soa incoerente por alguns motivos. Veja bem: as religiões monoteístas (cristianismo, judaísmo e islamismo) afirmam (judaísmo, com reservas) que o objetivo máximo da existência é viver eternamente com o Deus criador; outras religiões pregam que o objetivo máximo é conseguir uma evolução de espírito para viver novamente aqui em outra vida (p. ex. espiritismo) e outras ainda afirmam que não haverá nada além de nossa morte (p. ex. religiões orientais).

Imagine agora que você é um espírita e que por toda sua vida você alimentou o desejo de renascer em um nível espiritual mais elevado, então, quando você morre, você se depara que a verdade era que as religiões monoteístas sempre estiveram corretas. Ora, por mais que o Deus verdadeiro seja misericordioso e te ofereça “salvação”, você não estará recebendo aquilo pelo qual você se esforçou enquanto em vida. A “salvação” que você ansiava era uma vida nova aqui na Terra, não uma eternidade ao lado de um Ser que você não conhece.

Portanto, mesmo que aceitemos que o pluralismo fraco seja verdadeiro e que Deus conceda às pessoas das demais religiões a salvação, mesmo se assim fosse, ninguém mais além daqueles que de fato acreditaram no Deus verdadeiro enquanto em vida estariam satisfeitos na eternidade. Em outras palavras, mesmo que Deus garantisse a todas as pessoas a salvação, apenas os que buscaram o Deus verdadeiro enquanto estavam vivos, desfrutariam da salvação de forma plena na eternidade, os demais estariam recebendo um presente que eles não desejaram ganhar. Uma analogia seria uma criança que, esperando ansiosamente o ano inteiro para ganhar um vídeo-game no Natal, ganha, ao invés do presente desejado, um tabuleiro de xadrez.

Existem muitos cristãos que são pluralistas, porém, eles são falhos em responder como seria possível que todas as pessoas desfrutem de um relacionamento eterno com Deus – se Deus a concedesse salvação a todas as pessoas – mesmo várias destas pessoas não desejando viver este relacionamento com Deus.

Pense no caso dos ateus. Imagine como seria desagradável a um ateu ter de passar o resto da eternidade ao lado de um Deus que ele sempre negou enquanto ele estava vivo. Richard Dawkins já nomeou Deus dos mais absurdos adjetivos que se podem ser atribuídos a um ser, haveria castigo maior a Dawkins do que forçá-lo a viver ao lado de Deus por toda eternidade?

Colocando de fora o pluralismo, sobram o exclusivismo e o inclusivismo.

O exclusivismo é aceito por praticamente todas as pessoas seguidoras das religiões monoteístas, porém, enxergo várias dificuldades com esta posição, especialmente em relação ao exclusivismo forte. Apenas recapitulando, o exclusivismo forte diz que apenas uma religião é verdadeira e possui o caminho a Deus e, quem não seguir esta religião, está condenada à separação eterna de Deus.

O principal problema com o exclusivismo forte (defendido principalmente pelos cristãos) é que ele ataca o próprio cristianismo. A resposta comum “sei que estou no caminho certo porque o Espírito Santo me testifica que estou” não pode ser uma resposta válida na busca de se justificar sua religião uma vez que, convenhamos, todas as pessoas de todas as religiões afirmam ter uma testificação interna de que está no “caminho certo”.

Vamos aceitar por hora que o cristianismo seja a religião verdadeira. Mas qual cristianismo? O ortodoxo grego, o católico romano ou o protestante? Se for o protestante, qual deles? O cristianismo reformado, o luterano, o anglicano, o puritano, o metodista, o batista, o adventista, ou o evangélico? Já ouvi em várias denominações o absurdo de que não apenas “apenas os cristãos serão salvos”, mas que apenas os membros da denominação X serão salvos, pois eles sim agem conforme a vontade de Deus. Obviamente o Espírito Santo não testifica contradições nos corações de seus filhos, portanto, é bem provável aceitar que as pessoas confundem com muita freqüência “testificação do Espírito Santo” com “conforto pessoal”.

Tenho contra o exclusivismo forte, também, o fato de que encontramos muitos cristãos (por modelo de conduta) fora da religião cristã, o que me faz perguntar: não poderia Deus ter provido um meio de se revelar seu Logos às pessoas além do meio que conhecemos?

Se isto for possível (e certamente não deixaria de ser possível apenas porque alguns cristãos mesquinhos não querem compartilhar Cristo com as demais pessoas) Deus teria provido em cada cultura do mundo um meio alternativo de acesso a Ele além da revelação de Jesus Cristo há dois mil anos atrás de forma que todas as pessoas, de todas as culturas, povos e nações, terão alguma chance de escolha em relação à eternidade.

Esta opção alternativa é o inclusivismo. Ela aceita que Jesus Cristo é o único caminho para a salvação eterna, porém, de acordo com ela, Deus tem tanto amor e tanta misericórdia para com sua criação que desde os tempos remotos tem provido às pessoas que não tem acesso à fé cristã (por exemplo, as tribos indígenas isoladas e os mulçumanos que nascem e crescem aprendendo o islã) “caminhos alternativos” com o objetivo de que todas elas possam escolher, sem nenhuma pressão, se elas querem de fato passar a eternidade em relacionamento com Deus.

Que fique bem claro: não estou dizendo aqui que existem caminhos alternativos além de Cristo que levam uma pessoa a Deus. Estou dizendo que o próprio Cristo se revela de formas alternativas a povos e culturas distintas. Segundo esta teoria, o Logos de Deus, além de ter se revelado ao mundo na pessoa de Jesus Cristo a dois mil anos atrás, se revela de forma alternativa em culturas que possuem barreiras em relação à Israel, por exemplo.

Confesso, esta tem sido a explicação que mais tem me agradado dentre as que têm sido oferecidas. Porém, como todas as demais, ela tem seus problemas e ainda não cheguei a nenhuma conclusão quanto ao problema da variedade de religiões existentes.

Acredito que C. S. Lewis foi muito sábio nas suas palavras em relação às demais religiões existentes:

Se você é cristão, não precisa acreditar que todas as outras religiões estão simplesmente erradas de cabo a rabo. [...] Se você é cristão, está livre para pensar que todas as religiões, mesmo as mais esquisitas, possuem pelo menos um fundo de verdade. [...] É claro, no entanto, que, pelo fato de sermos cristãos, nós temos efetivamente o direito de pensar que, onde o cristianismo difere das outras religiões, ele está certo e as outras, erradas. É como na aritmética: para uma determinada soma, só existe uma resposta certa, e todas as outras estão erradas; porém, algumas respostas erradas estão mais próximas da certa do que as outras.

Podemos, a partir daqui, refletir sobre a importância do diálogo com as demais religiões do mundo em busca de conquistar objetivos comuns. Por exemplo, vencer a fome no mundo é um objetivo tanto do cristão, quanto do mulçumano, quanto do ateu. Que mal há deixar as diferenças de cosmovisão de lado por um instante e juntar as forças no intuito de resolver esta questão? Que mal haveria se os cristãos se juntassem aos espíritas e realizassem obras de caridade junto com eles?

Existe um exemplo muito “evangélico” que posso dar em relação a isso. Recentemente vi o pastor Silas Malafaia falando contra a aprovação do PLC 122/2006 (crime de homofobia) dizendo que o Brasil é uma nação onde 93% das pessoas professam a fé cristã e que, portanto, o Estado deveria levar em conta a opinião e respeitar a opinião religiosa do povo. Ora, tenho plena certeza que o Silas Malafaia não considera os católicos como cristãos de fato, da mesma forma que muitos católicos não consideram nós, evangélicos, como cristãos autênticos. Porém, uma vez que ambos possuem um problema em comum e um objetivo em comum, deixou-se de lado as diferencias teológicas e todos passaram a ser unicamente “cristãos” no intuito de que seja atingido o objetivo que beneficiaria tanto a católicos, quanto a evangélicos.

Alguns podem dizer que agir deste modo é agir com falsidade, mas esta acusação é infundada. Se lermos a história do povo hebreu na Bíblia veremos que por inúmeras vezes a nação de Israel se relacionou com nações vizinhas quando tinham o objetivo de derrotar algum inimigo comum. A Bíblia diz que a época mais próspera de Israel foi a primeira parte do reinado de Salomão, quando havia paz em todas as divisas da nação e relações comerciais mútuas aconteciam entre Israel e as demais nações. A Bíblia diz que jamais houve pessoa tão sábia quanto Salomão.

Para uma igreja próspera, precisamos saber nos relacionar com aqueles que discordam de nós. Unilateralismo nunca ajudou ninguém, seja na política, seja na economia, seja na diplomacia entre as nações, seja na história eclesiástica.

Portanto, aqui temos bons pontos para reflexão.

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